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Genealogia de Jesus: significado e estudo

A Bíblia relata para nós duas genealogias de Jesus. A primeira está em Mateus 1.1-17 e a segunda está em Lucas 3.23-38. Cada uma delas tem particularidades ricas em significado e ensino. Portanto, merecem nosso estudo e atenção!

Desde muito tempo atrás, a interpretação tradicional supõe que:

  • a genealogia registrada em Mateus acompanha a linhagem de Jesus por intermédio de José (sua genealogia legal),
  • Enquanto que a genealogia em Lucas acompanha sua linhagem por meio de Maria (sua genealogia natural).

Algumas Teorias sobre as Genealogias de Jesus

A interpretação tradicional encontra algum apoio no fato de que, em Mateus, a narrativa do nascimento de Jesus concentra-se mais no papel de José que no de Maria (Veja Mateus 1.19-25; Mt 2.19-23). E por sua vez, a narrativa de Lucas faz de Maria personagem principal (Veja Lucas 1.28-30; Lc 1.42-48; Lc 2.19).

Há uma antiga hipótese que explica esse fato porque José seria a fonte de boa parte das narrativas do nascimento registradas em Mateus, ao passo que Maria é a fonte da maior parte do material de Lucas.

Outra teoria que plausível é a ideia de que Mateus apresenta a genealogia régia ou legal, enquanto que Lucas apresenta os que concreta e fisicamente descenderam de Davi.

Mas, qual é a diferença nisso? Naquela época havia antigas listas dinásticas, que apenas acompanhavam a linhagem da sucessão. Por isso, eram seletivas em suas informações. Não registravam todos os nomes de descendentes, apenas os sucessores mais importantes. Sendo assim, Mateus teria usado uma dessas listas dinásticas, enquanto Lucas reconstruiu a genealogia mais minuciosamente. Essa teoria não é impossível. No entanto, infelizmente, não há como confirmá-la ou refutá-la.

O fato é que os autores tinham em mente ensinar verdades a respeito de Cristo. Não queriam um registro científico histórico, mas trouxeram verdades profundas sobre o nascimento do Filho de Deus. Para isso, fizeram caminhos diferentes, mas não falaciosos.

Comparando as Genealogias

Começaremos pela genealogia registrada em Mateus e depois falaremos sobre Lucas. Cada um deles teve um propósito ao escrever seu evangelhos. Há algumas diferenças notáveis que nos ajudam a entender os objetivos dos autores. Vejamos a seguir:

A genealogia em Mateus

Em Mateus, a genealogia serve de introdução ao Evangelho, em especial para as narrativas do nascimento, e acompanha a linhagem que vai desde Abraão e, que através de José chega a Jesus. Ele usa repetidamente o verbo “gerou”.

Há uma divisão de organização dos nomes em três grupos de catorze. É notável a inserção de algumas mulheres e, possivelmente, alguns irmãos. Contudo, percebe-se também a omissão de vários nomes.

No final da genealogia, há um detalhe muito importante, a ausência do verbo “gerou”. Mateus fez uso repetitivo desse verbo para traçar a conexão entre pais e filhos. No entanto, quando se refere a José e Jesus ele não usa o verbo (Mt 1.16). José é o marido de Maria, da qual Jesus nasceu. Mas, José não “gerou” Jesus. Isso, reflete a crença do autor na concepção virginal.

A genealogia em Lucas

Em Lucas a genealogia aparece após o batismo e serve de introdução ao ministério de Jesus e, dessa maneira, não faz parte propriamente da narrativa do nascimento de Cristo. Lucas usa a expressão “filho de” repetidamente. Seu registro começa com Jesus, chega até Adão e, por fim, Deus.

Essa genealogia começa com uma explicação que indicando que Jesus não era filho biológico de José:

Jesus tinha cerca de trinta anos de idade quando começou seu ministério. Ele era, como se pensava, filho de José, filho de Eli… Lucas 3:23 [grifo nosso]

A explicação “como se pensava” mostra que Jesus era conhecido pelo povo como filho de José, mas na realidade, ele é Filho de Deus. É interessante ver que é o próprio Deus que afirma isso em Lc 3.22, um versículo antes da abertura da genealogia.

Resumindo as ideias

À primeira vista, parece que a genealogia de Mateus tem como propósito apresentar Jesus como um israelita verdadeiro e, em particular, um descendente de Davi. Enquanto Lucas tenta mostrar que Jesus é um ser humano de verdade. Isso pode explicar certas diferenças encontradas na forma e no conteúdo dessas genealogias.

Em ambas, contudo, a intenção básica é dizer ou explicar aos leitores algo acerca de Jesus e de seu caráter, não tanto dar a conhecer seus ancestrais.

Nota do Editor
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A Teologia na Genealogia de Jesus

Alguns aspectos mais profundos nessas genealogias nos trazem ensinos riquíssimos. Por isso merecem atenção especial.

Objetivos teológicos de Mateus

A genealogia de Mateus deve ser lida em conjunto com o trecho seguinte (Mt 1.18-25). Juntas, as duas partes destacam Jesus como Filho de Davi e Filho de Deus, temas desenvolvidos em outras passagens do evangelho.

Provavelmente, o objetivo de Mateus 1.18-25 é explicar a genealogia e, em particular, como Jesus podia ter nascido de Maria, mas não de José, e ainda assim pertencer à linhagem davídica. Isso significa que a genealogia e o trecho seguinte pressupõem e tentam explicar o nascimento virginal. Mateus se preocupa em explicar essa questão, pois, seria um tema sensível a respeito da origem de Cristo.

Por esse motivo, podemos considerar que Mateus encontrou um meio de defender
a concepção virginal. Isso explica, em parte, a decisão incomum de incluir várias mulheres na genealogia.

Na verdade, isso só acontecia quando:

  • o pai era desconhecido,
  • ou quando os filhos de um patriarca provinham da união com esposas diferentes,
  • ou quando as mulheres estavam relacionadas com algum personagem importante
  • ou quando eram elas mesmas personagens famosas (como é o caso aqui).

As mulheres na genealogia em Mateus

Mateus não cita apenas Maria. Ele inclui outras quatro mulheres: Tamar, Raabe, Rute e Bate-Seba. Alguns estudiosos discutem por qual motivo Mateus as incluiu em sua lista. As principais hipóteses são:

  1. É possível que Mateus estivesse mostrando uma ponte entre Jesus e gentios e pecadores. Visto que algumas dessas mulheres tinham histórias controversas. Como é o exemplo de Raabe que era uma prostituta pagã, mas foi acolhida pelo povo de Deus e teve sua vida transformada.
  2. Alguns acreditam que a menção a essas quatro mulheres teve o objetivo de mostrar que elas foram veículos do plano messiânico de Deus, apesar das uniões irregulares. Desse modo, parece que nosso autor deseja, por meio dessa genealogia, chamar a atenção para Maria como instrumento do plano messiânico de Deus (e como fonte da humanidade de Jesus), mostrando que, para ser descendente de Davi, Jesus foi devedor tanto a mulheres quanto a homens.

Leia também: Quem foi Raabe?

A importância de José em Mateus

Embora o Evangelista mencione Maria na genealogia, é José com seus
sonhos que faz a ligação entre as várias narrativas de Mateus 1—2.

Mateus concentra sua atenção na reação de José diante da intervenção divina na vida de Maria e, em particular, mostra como, por meio de sonhos, ele é repetidas vezes levado a fazer a vontade de Deus. Não é por acidente que, além de
Jesus, nesses relatos só José seja chamado “filho de Davi”. Ele é visto como o típico patriarca que guiará e protegerá Maria e Jesus de acordo com a direção de Deus.

José é apresentado como um discípulo-modelo e um filho de Israel. É obediente aos sonhos celestes e chamado “homem justo” (Mt 1.19), ou seja, aquele que apoia e defende a Lei. Assim, em Mateus 1.18,19 ele é apresentado como alguém apanhado entre a santa lei de Deus e seu amor por Maria.

Ele é um judeu fiel, que está disposto a abrir mão do que era visto como o
maior privilégio de um pai judeu — engravidar a esposa de seu primogênito — a fim de obedecer à vontade de Deus (Mt 1.24).

Assim, Mateus explica um pouco como Jesus se tornou legalmente filho
de Davi e busca mostrar a veracidade da origem de Jesus. Nessa apresentação, Maria não apenas está submissa à liderança de José, mas também totalmente calada. Por isso, é possível que o autor esteja reafirmando os tradicionais papéis judaicos de liderança masculina e submissão feminina por causa de seu público judaico-cristão.

Objetivos teológicos de Lucas

A genealogia de Lucas apresenta Jesus no contexto mais amplo da humanidade em geral não apenas do judaísmo. Isso acontece porque Lucas está escrevendo para um público gentio e deseja mostrar que Jesus também veio para eles.

Contudo, é importante enfatizar que Jesus é apresentado como o ideal humano! Ele não é apenas um só com toda a humanidade, mas, deve ser visto como o modelo de relacionamento pessoal com Deus e com o próximo! Ele também é o exemplo de como se deve agir na tentação e em outros aspectos de como seguir a vontade de Deus.

Lucas apresenta Jesus como o Novo Adão, ou seja, ele é o primeiro em uma nova linhagem de seres humanos. Mas com a diferença fundamental é que esse Adão — ao contrário do primeiro — é um filho obediente de Deus.

Um fato importantíssimo é a presença da expressão “filho de Deus” no final da genealogia. Pois, os judeus, em suas genealogias, não tinham o costume de se referir a alguém dessa forma. Existe, então, uma ênfase não apenas na humanidade plena de Jesus (um filho de Adão), mas também em sua origem divina, que portanto, procede de Deus (um filho de Deus).

Conclusão

Em Mateus e Lucas, os objetivos são mostrar a natureza de Jesus e as verdades bíblicas que se concretizam ali. Os autores não estavam preocupados em apresentar listas minuciosas ou exaustivas de todos os antepassados de Jesus. Eles desejavam realçar alguns aspectos de sua herança, os quais iriam demonstrar aos seus leitores a relevância e a natureza de Jesus.

Fonte Bibliográfica:

Esse artigo sobre as genealogias de Jesus tem como fonte principal o Dicionário Teológico do Novo Testamento; Editora Vida Nova. São Paulo: 2012. Verbete: Jesus, Nascimento de. Escrito por B. Witherington. pág. 706-710.

 

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A Mulher Samaritana

Um dos encontros mais marcantes de Jesus na Bíblia é com a Mulher Samaritana. Esse momento está relatado em João 4.3-30. O evangelho não nos conta qual era o nome verdadeiro dela. Por isso, ficou conhecida como Mulher Samaritana. Ou seja, uma mulher de Samaria que teve um diálogo marcante com Jesus, a partir do qual toda sua vida mudou.

Os Samaritanos

Os samaritanos eram um povo com antepassados israelitas, mas, ao longo dos séculos foi mesclado com outros diversos povos pagãos que dominaram seu território. O povo que era israelita se casou com pessoas da Babilônia, adoraram outros deuses. Foram mudanças profundas nos costumes e religião do povo do Reino do Norte.

Dessa forma, os judeus não consideravam os samaritanos como parte do Israel verdadeiro. Havia grande rivalidade entre judeus e samaritanos, ambos se odiavam profundamente.

O encontro de Jesus com essa mulher é uma quebra de paradigmas culturais da época. Visto que judeus não falavam com samaritanos. Tampouco, um rabi judeu falaria com uma mulher de Samaria.

Jesus teve de passar por Samaria

João nos conta que Jesus teve de passar por Samaria (Jo 4.4). Mas por quê? Ele estava saindo da Judeia em direção à Galileia. Sendo assim, “teve de passar” poderia significar apenas que o caminho mais curto e rápido da Judeia para a Galileia era a estrada que passava por Samaria. Muitos viajantes galileus usavam esse percurso para ir a Jerusalém.

No entanto, “teve de passar por Samaria” tem outro sentido. Veja:

  • O Evangelho de João enfatiza constantemente a consciência do plano divino agindo no tempo correto em cada passo de Jesus (Jo 2.4; Jo 7.30; Jo 12.23; Jo 13.1).
  • Ao fim de sua conversa com a Mulher Samaritana, Jesus diz que seu alimento é fazer a vontade de seu pai e concluir sua obra. (Jo 4.34)
  • Sendo assim, havia um propósito de Deus para o encontro entre Jesus e aquela mulher.
  • Portanto, Jesus teve de passar em Samaria para cumprir a vontade do Pai de levar o evangelho também aos samaritanos.

O encontro entre Jesus e a Mulher Samaritana

Em meio a sua viagem, Jesus passou pela cidade samaritana de Sicar. Seus discípulos tinham ido buscar comida. Havia ali um poço. Jesus estava cansado da viagem e decidiu sentar-se um pouco.

Era por volta do meio dia, o momento em que o sol está mais forte. Então, uma mulher samaritana veio buscar água no poço. Nesse momento, Jesus aproveita a oportunidade para pedir água àquela mulher. A mulher se assusta e pergunta “Como o senhor sendo judeu pede água para mim que sou samaritana???” (Jo 4.9).

Vamos ver os detalhes desse momento

  • As mulheres daquele época costumavam buscar água no poço logo cedo. Elas iam em grupo. E aproveitavam o momento em que o sol estava mais ameno.
  • Aquela mulher samaritana faz o oposto. Ela vai ao meio dia, sozinha. Como se estivesse evitando se encontrar com outras pessoas. (Jo 4.6)
  • Jesus pede água para a samaritana. Isso vai contra a rivalidade dos judeus e samaritanos. Veja que a atitude de Jesus espanta a mulher. João faz questão de nos explicar que judeus não se davam bem com samaritanos.(Jo 4.9)

É em meio a esses detalhes que percebemos que esse não é um encontro comum, por mero acaso. Jesus tem um propósito ali. E logo ele começa a revelá-lo.

A primeira parte do diálogo

Ao ouvir a reação espantada da mulher, Jesus lhe responde de maneira enigmática.

Jesus lhe respondeu: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo água, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva”.
João 4:10

Nessa frase, vemos que ele desperta a curiosidade da mulher. Ao mencionar a água viva e também ao sugerir um mistério sobre “quem está lhe pedindo a água”. Sutilmente Jesus instiga a mulher a pensar além da água, e quem seria esse com quem ela falava.

As objeções da Mulher

Mas a mulher lhe faz objeção com dois pontos:

  • Se o senhor não tem como pegar água do poço, como e onde vai conseguir essa tal água viva? (Jo 4.11)
  • Por acaso, o senhor é maior que Jacó que construiu o poço e bebeu dele com seus filhos e seu gado? (Jo 4.12)

A resposta de Jesus

Jesus não responde diretamente as perguntas da mulher, ele continua em seu enigma. Esse enigma é chamado Mashal, é um dito paradoxal, velado e contundente. Alguns termos demonstram dupla interpretação. De forma que o ensino é dado em forma de enigma. [fonte] Hendriksen, William. Comentário do Novo Testamento – João [/fonte]

Jesus respondeu: “Quem beber desta água terá sede outra vez,
mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”.
João 4:13,14

Perceba que ele continua instigando a curiosidade da mulher. E através do assunto da água, ele está ensinando algo sobre o evangelho. Água e sede tem um duplo sentido na frase de Jesus. Porém, a mulher entende apenas o sentido material dos termos, enquanto o mestre está ensinando algo espiritual.

Ao ouvir Jesus dizer “água viva” a mulher pode ter entendido primeiramente “água nascente”. Como se Jesus estivesse se referindo a uma fonte de corrente, uma nascente de água em outro lugar. Mas, o ensino de Cristo aponta que água viva é um símbolo de fonte infinita de vida, a dádiva da vida eterna e salvação.

As sedes da Mulher Samaritana

A fala de Jesus mostra diferentes sedes de uma pessoa. Percebemos isso ao ver Jesus mencionando a vida eterna. Contudo, a mulher deseja uma água que a faça não ter mais sede física, para que não precise ir novamente ao poço. (Jo 4.15) Ela conhece a sede do corpo. Mas isso não é tudo.

Ela tem uma sede mais profunda, mas não sabe. A sede da alma que ela esconde tão bem, até de si mesma. A sede espiritual de uma vida árida e distante de Deus. Uma sede como a do Salmo 42.1-2. A sede da alma só pode ser saciada com um encontro real com o Deus vivo.

Sendo assim, o Criador conhece o coração que está sedento e precisa desesperadamente da água viva. Água que flui do próprio Deus.

Os 5 maridos da Mulher Samaritana

Ambos estavam falando sobre água e sede. De repente Jesus diz: “Vá chamar seu marido e volte!”. A mulher, desconcertada, diz “Não tenho marido”. A resposta está correta. Ela não tem marido. Ela já teve cinco, e agora estava com um homem, mas este não era seu marido. (Jo 4.16-17)

Talvez, seja esse o motivo pelo qual ela ia buscar água sozinha. Pode ser que esse fosse um motivo de vergonha para ela.

Repare nas respostas anteriores dessa mulher. Se olharmos o texto em grego (língua original), veremos:

  • No versículo 9, ela usa cerca de 11 palavras.
  • Nos versículos 11 e 12, são 42 palavras.
  • No versículo 15, são 13 palavras.
  • Mas, no versículo 17, ela usa apenas 3 palavras.

Diante disso, percebe-se que ela não gostava do assunto. E colocou-se em posição defensiva quando Cristo menciona seu marido. Sua postura muda drasticamente.

Por que Jesus mandou a mulher samaritana chamar seu marido?

Porque ele conhecia o coração da mulher. Através dessa frase ele demonstra que conhece até os segredos da vida dela. Ao mencionar esse assunto, ele está se aprofundando e falando à consciência dela. Jesus demonstra conhecer o passado e o presente da mulher.

Ao expor verdades sobre a mulher e sua vida atual de pecado, Jesus estava preparando-a para conhecer a verdade sobre a água viva. Diante do que ela ouve sobre sua própria história, ela o chama de profeta (Jo 4.19). Ao chamá-lo assim, ela confirma que o que ele havia dito era verdadeiro. Ela assume seu pecado.

A partir disso, a conversa se encaminha para o seu ponto mais importante.

A segunda parte do diálogo

É interessante que a partir de sua conversa com Jesus, aquela mulher levante a questão da adoração. Ela pergunta qual é o lugar correto para adorar a Deus. (Jo 4.20) Ao ter seu pecado exposto por Cristo, ela fala sobre adoração. Se caso agora ela estivesse se arrependendo, aonde deveria buscar a Deus?

Verdadeiros adoradores

Nesse momento Jesus ensina algo maravilhoso para ela e para nós. Não importa o local de adoração, se é Jerusalém ou qualquer outro lugar no mundo. A verdadeira adoração é em espírito e em verdade. Os verdadeiros adoradores que Deus procura o adorarão assim. (Jo 4.21-24)

Mas, qual é o significado de adorar em espírito e em verdade?

Vejamos o contexto da fala de Jesus em Jo 4.23-24;

  • a adoração a Deus não está restrita a um lugar sagrado (Jo 4.21)
  • essa adoração é preenchida pela verdade, ou seja, conhecimento claro e profundo de Deus, que flui de sua salvação. (Jo 4.22)
    • Sendo assim, adorar a Deus em Espírito e em Verdade, significa: honrar a Deus de tal maneira que todo o ser entra em ação, e fazer isso em perfeita harmonia com a vontade de Deus, conforme se encontra revelada nas Escrituras. [fonte] Hendriksen, William.[/fonte]

Essa adoração tem seu fundamento na verdade que Jesus revela a seguir:

Então Jesus declarou: “Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você”.
João 4:26

Jesus revela que ele é o Messias, o Filho de Deus que veio ao mundo para salvar e resgatar os perdidos. É muito especial que ele tenha revelado isso de forma tão direta a essa mulher. Visto que, em outras ocasiões e encontros ele não tenha falado isso abertamente.

O Testemunho da Mulher

Veja que nesse momento os discípulos de Jesus chegam. A mulher deixa o cântaro ali mesmo e corre para a cidade para contar a todos sobre o homem que encontrou no poço. Chama os seus vizinhos e conhecidos para conhecê-lo dizendo “Será que ele é o Cristo?”. (Jo 4.28-29) (Cristo e Messias são palavras com mesmo significado)

A partir do testemunho dela, muitos samaritanos vêm até Jesus e o conhecem.(Jo 4.39) Eles pedem que Jesus permaneça ali, ele aceita e fica por dois dias. Após esses tempo aprendendo com Jesus, eles dizem:

E disseram à mulher: “Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este é realmente o Salvador do mundo“.
João 4:42

Veja que o que Cristo disse à mulher se cumpriu. A partir do momento que ela reconheceu que ele era o Messias, sua vida foi transformada. Como se água viva estivesse fluindo do seu coração que outrora estava árido pelo pecado.

Ao receber a água viva, ela partiu e contou aos outros sobre o Messias. Ela conta a todos sobre a fonte de água viva que transformou sua vida. Desse modo, de dentro dela a água viva jorrava em forma de testemunho àqueles que a ouviam. (Jo 4.13-14) Ela pôde saciar sua sede espiritual. E então, agora, ela e seus conterrâneos sabiam que Jesus Cristo é o Salvador do mundo.

 

 

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A Mulher do Fluxo de Sangue

Em Marcos 5.24-34; Lc 8.43-48 e Mt 9.20-22;  a Bíblia relata para nós o momento em que uma mulher toca em Jesus. Isso pode parecer normal. Contudo, a história relata que como um ato de fé essa mulher toca em Jesus para ser curada de uma doença que a afligia por 12 longos anos.

Essa história tem detalhes e ensinamentos muito valiosos. Portanto, vamos nos aprofundar através do estudo dessa passagem bíblica.

Contexto anterior

Em todos os relatos bíblicos da história dessa mulher, lemos antes que um homem chamado Jairo vai ao encontro de Jesus e pede com urgência que ele vá até sua casa, pois sua filha está muito doente, à beira da morte. Ao ouvir o pedido, Jesus começa a acompanhar Jairo até sua casa. Contudo, no meio do caminho, uma grande multidão se aproximou de Jesus e seus companheiros, de forma que era difícil andar. 

Em meio à multidão, estava uma mulher que padecia havia 12 anos de uma hemorragia (ou fluxo de sangue). (Mc 5.25) Os três evangelhos relatam o tempo que ela sofria desse mal. Porém, nenhum deles relata seu nome. No entanto, todos enfatizam, especialmente, a sua fé

A realidade da Mulher com fluxo de sangue

Essa mulher sofria há muito tempo e gastou tudo que tinha com os médicos à procura de uma cura (Lc 8.43). Mas, ao invés de melhorar, sua situação era cada vez pior (Mc 5.36). A história parece demonstrar que a hemorragia era incurável. Uma doença que piorava gradualmente e debilitava a mulher, lhe causando sofrimento e vergonha, além de outros diversos incômodos e constrangimentos.

Ser uma mulher com hemorragia nos tempos bíblicos era mais do que um problema clínico. Havia outras implicações culturais. 

Questões culturais – Fluxo de Sangue no Antigo Testamento

Qualquer mulher que estivesse em seu período menstrual era considerada impura cerimonialmente (Lv 15.19). Ou seja, por conta de sua doença, essa mulher tinha também restrições culturais. Pois, quem tocasse nela seria considerado impuro. Assim, as pessoas a evitavam. Além disso, ela não podia entrar no templo para participar dos momentos de adoração. 

Sendo assim, além do sofrimento físico, sua doença lhe causa exclusão social. A mulher sofria havia doze anos e estava sem esperanças. Até que ouviu falar de Jesus (Mc 5.27).

O encontro da Mulher com Jesus

Em meio ao aperto da multidão (Mc 5.24), que o cercava por todos os lados, Jesus sentiu um toque diferente. Ao sentir esse toque, Jesus perguntou “Quem me tocou?” (Mc 5.30). Perceba que cena curiosa. Jesus está sendo comprimido e apertado por toda multidão ao redor e de repente pergunta quem o está tocando. 

Seus discípulos estranham a pergunta do mestre! “A multidão toda te aperta e você pergunta quem te tocou?” (Mc 5.31) Várias pessoas estão tocando Jesus! Mas, em meio a toda pressão da multidão, um toque foi diferente. Jesus não estava falando dos toques físicos, mas de um toque de fé.

Uma mulher com fluxo de sangue, acanhada e humilde, havia se esgueirado em meio a multidão. E sutilmente tocou a barra do manto de Jesus. Discretamente, ela o tocou. Um toque sutil e rápido. Pois, ela acreditava “Se eu apenas o tocar serei curada” (Mc 5.28).

Ela não queria interromper o mestre. Por causa de sua condição, ela nem ousa apresentar-se. Ela não tinha o que lhe oferecer. Nem ao menos se achava digna de se colocar diante dele. Tudo que ela tinha era uma simples fé que ao tocá-lo, mesmo que fosse um breve toque em sua veste, ela seria curada. Pois, ela sabia que o poder de Jesus era grandioso, então apenas um toque seria suficiente.

A mulher imaginava que Jesus jamais perceberia o toque dela na ponta da veste. 

A cura da Mulher com fluxo de sangue

Imediatamente!!! Ao tocar a veste de Jesus, a mulher é imediatamente curada! (Mc 5.29) Ela sente seu corpo livre do sofrimento que carregava há tantos anos! O alívio lhe percorre o corpo e a mente. A leveza invade sua alma.

Então, de repente ela ouve Jesus perguntar “Quem me tocou?”. 

Ao ver que Jesus insistia e procurava saber quem havia lhe tocado, a mulher se apresenta diante dele. Veja que ela treme de medo ao se colocar diante dele. (Mc 5.33) Ela se prostra de joelhos, aos pés de Jesus e lhe conta toda a verdade. Seu medo pode ser por ter tocado o mestre sendo ela impura. Ou por ter “usado” o poder do mestre sem sua permissão. Ele teme a Jesus, pois não o conhece. 

A fé da mulher não é perfeita. Mas, Deus graciosamente concede cura para ela. Além disso, sua fé aprofundada e elevada através de seu encontro com Jesus. 

O ciclo do encontro com Deus

Ao tocar Jesus, a mulher recebe a cura. Entretanto, o propósito do encontro com Jesus não estava completo. Por isso, Jesus faz questão de saber quem lhe tocou. Veja o que lemos no Salmos 50.15:

“e clame a mim no dia da angústia; eu o livrarei, e você me honrará.”
Salmos 50:15

Nesse versículo vemos 3 passos: Clamor – Livramento – Glória a Deus.

Sendo assim, o ciclo e propósito daquele encontro não estava completo. Ela (1) havia clamado a ele com o toque, (2) recebeu a cura, mas ainda não havia o honrado, faltando assim o terceiro passo. Então, quando ela se prostra e lhe conta tudo, o ciclo se completa.

Por fim, veja que é apenas nesse momento que ela recebe o carinho direto de Jesus. Ele lhe diz:

Então ele lhe disse: “Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento”.
Marcos 5:34

Perceba a forma gentil que ele usa ao chamá-la de filha. Não só a cura é derramada sobre ela, Jesus lhe dá paz e liberdade. A certeza de que o sofrimento não voltará.

Ao apenas tocar em Jesus, ela não havia recebido a parte mais especial: falar com ele e receber seu afeto. Ela sentiu medo quando ele chamou. Mas, as palavras de Jesus a conduzem a conhecer o coração do mestre.

Depois desse encontro, ela pode perceber que não foi apenas o poder de Jesus que a curou, mas sim, sua graça e misericórdia. Portanto, a fé não se baseia apenas em crer no poder de Deus. Mas, em que Deus nos ama e tem compaixão dos que sofrem.

Ainda que ela tenha tido que esperar 12 anos. O sofrimento teve o propósito de aproximá-la de Jesus e dar a ela o privilégio de receber seu afeto e poder.