O que era o Espinho na Carne de Paulo? Qual significado?

Paulo é um dos personagens mais importantes do Novo Testamento. Sua obra missionária é extremamente importante para a expansão e desenvolvimento do cristianismo. Treze livros do Novo Testamento são atribuídos a ele. Além disso, grande parte do Livro dos Atos conta sua história. Ainda assim, vemos que uma vida tão dedicada a Deus não está livre de desafios e sofrimentos.

O Apóstolo Paulo relata para nós alguns de seus sofrimentos, tais como: prisões, açoites, exposição à morte, apedrejamento, naufrágios, fome, sede, frio, entre tantas outras coisas (2Co 11.23-28). Contudo, além desses sofrimentos, Paulo relata um ainda maior. Um espinho na carne.

Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar.

2 Corintios 12:7

O que era o espinho na carne?

Em 2Co 12.7, Paulo menciona que lhe foi dado um espinho na carne. Mas, não há uma explicação sobre qual exatamente era esse espinho. A palavra espinho é simbólica aqui, se refere a algo agudo, que causa dor e desconforto.

Esse espinho enfincado na carne parece indicar algum sofrimento corporal ou enfermidade constante. Mesmo que Paulo tenha sido levado ao terceiro céu, o espinho severamente lhe mostrava que ele era um homem com um corpo frágil e mortal. 1 THAYER’S Greek Lexicon. Verbete: σκόλοψ

A palavra “espinho” era também usada com um sentido de tortura em uma punição conhecida como empalar. As palavras gregas para “empalar” e “crucificar” eram, de fato, usadas quase como sinônimos, indicando um tipo de tortura. 2 Ellicott’s Commentary for English Readers

De certa forma, o sofrimento de Paulo faz parte da cruz que ele havia de carregar pelo evangelho (Mt 16.24). Mas, veja que para Paulo, sofrer pelo evangelho era motivo de gloriar-se (2Co 11.30; 2Co 12.1).

Primeiras Hipóteses sobre o Espinho na Carne:

Visto que não podemos saber qual era exatamente o espinho, apresentamos agora o que alguns estudiosos supõem que ele era:

  • A lembrança e remorso por seu passado, quando perseguia os discípulos de Jesus.
  • Uma desconfiança a respeito de sua própria salvação e se teria recebido o perdão amoroso de Deus.

Essas duas primeiras hipóteses são descartadas pelos estudiosos atualmente. Visto que Paulo fala em seus escritos coisas que contradizem essas ideias. Quanto ao seu passado, ele diz que Jesus veio salvar os pecadores, dos quais ele é o pior. Mas, mesmo sendo o pior, a misericórdia de Deus o havia salvo 1Tm 1.15-16. Portanto, não havia dúvida a respeito de sua salvação e do perdão de Deus sobre ele.

Quanto ao remorso sobre seu passado, Paulo diz que a graça de Deus não havia falhado para com ele, mesmo ele tendo perseguido a igreja de Deus (1Co 15.9-10). Além disso, a conversão de Paulo foi motivo de grande alegria para a igreja e uma grande demonstração do poder de Deus. Pois, Deus havia convertido o maior perseguidor da igreja e feito dele um propagador do evangelho. (Gl 1.14; Gl 1.23-24)

Sendo assim, Paulo não tinha remorso por seu passado. Embora fossem lembranças tristes, Deus havia mudado sua vida e agora ele sofria juntamente com a igreja que perseguiu outrora. Ademais, a misericórdia o havia alcançado extraordinariamente. Portanto, Paulo estava resolvido com seu passado e também convicto de que a salvação era garantida por Jesus Cristo (Fp 1.6).

Outras Hipóteses sobre o Espinho na Carne:

Outras duas hipóteses permanecem:

  • (1) Paulo está falando de uma luta com a paixão sensual.
  • (2) Ele se refere a uma enfermidade crônica em seu corpo que recorrentemente causa dor aguda.

Quanto à primeira hipótese (1), parecem contribuir para esse pensamento a linguagem de Paulo em algumas cartas. Quando ele argumenta sobre suas tentações. Ele fala sobre a lei dos seus membros que guerreiam contra o que ele deseja verdadeiramente (Rm 7.23); o pecado operou nele todo tipo de concupiscências (Rm 7.8); ele achou necessário subjugar seu próprio corpo e mante-lo em sujeição (1Co 9.27); entre outras referências. Desse modo, podemos traçar uma referência alusiva às tentações de impulsos naturais do corpo. Essas tentações poderiam causar constrangimento e sofrimento moral, além de extremo desconforto com a luta constante contra sua própria carne.

Esse entendimento foi defendido por alguns pensadores na patrística, era medieval e católicos. Embora haja pouco peso de autoridade nessa interpretação, ela evidencia que tal tentação é amarga e dolorosa. Contudo, é necessário levar em consideração que essa interpretação foi influenciada por aqueles que ou viviam em monastérios ou se dedicado ao celibato. A partir de seus testemunhos, vemos que a tentação da sexualidade pode abalar profundamente homens que estão buscando um alto grau de santidade. Relatos de Antônio, Jerônimo, Ambrósio e Agostinho não têm receio em expor os perigos e dificuldades desse tipo de tentação que todos eles enfrentavam.

Contudo, pesa contra essa primeira hipótese o fato de que não há nada claro na história de Paulo sobre pecados dessa natureza. Tornando assim essa hipótese extremamente especulativa. Mesmo as referências bíblicas usadas por aqueles que defendem essa hipótese, não podem ser usadas com exatidão, pois, poderiam se referir a diversas tentações diferentes. Não há também qualquer evidência de que a palavra espinho, no grego, fosse usada com o sentido de tentação sexual. Se o apóstolo tivesse a intenção de falar sobre essa tentação, ele precisaria ser mais explícito para se fazer entender. Portanto, é difícil crer que seria esse o espinho de Paulo. 3 Ellicott’s Commentary for English Readers

O Espinho na carne era uma enfermidade?

A hipótese que permanece é “uma enfermidade crônica em seu corpo que recorrentemente causa dor aguda”. Aqui há mais base, pois há evidências que Paulo sofria de agudas enfermidades. Veja Gl 6.11, Gl 4.14-15, esses textos indicam as sobrancelhas e olhos como o local da dor aguda. A própria palavra esbofetear, indica a face como o alvo do sofrimento.

Ao analisar a expressão “mensageiro de Satanás”, usada por Paulo é importante lembrar que, no pensamento judaico, entendia-se que as doenças eram causadas pelos demônios. Veja o sofrimento do Jó; a mulher doente aprisionada por Satanás (Lc 13.11,16); Paulo também faz menção às lutas que tem enfrentado por causa do inimigo (1Ts 2.18); há também a passagem quando ele entrega alguns homens para o inimigo, como forma de disciplina, afim de que seus corpos sofram, mas a alma seja salva (1Co 5.5; 1Tm 1.20); Pedro descreve as curas de Jesus como a libertação daqueles que estavam sendo oprimidos pelo diabo (Atos 10.38). Essas são evidências suficientes de que, quando se referiam à maioria dos sofrimentos e calamidades da mente e do corpo, eles criam que se tratava da ação de Satanás.

Portanto, há evidências que apontam essa hipótese como mais provável. 4 Ellicott’s Commentary for English Readers

Contexto de 2 Coríntios 12 e o Espinho.

Em 2Co 11, Paulo fala a respeito de seus sofrimentos e esforços por causa do evangelho. Após enumerar diversos acontecimentos, ele fala a respeito de visões e revelações que recebeu. Tanto os sofrimento quanto as revelações servem como prova de seu apostolado e indicam que as doutrinas, ensinamentos e repreensões de Paulo devem ser recebidas com respeito.

Em especial no capítulo 12, Paulo fala que recebeu recebeu revelações e visões maravilhosas demais, que não cabe ao homem falar (2Co 12.1,4).Visto que isso poderia se tornar um motivo de vanglória e orgulho, Paulo diz que prefere se gloriar em suas fraquezas (2Co 12.5).

É exatamente essa a base para entender o propósito do espinho na carne. Esse espinho tem o propósito de impedi-lo de se gloriar. Portanto, é para mantê-lo humilde e lembrá-lo de que é um homem frágil e dependente da graça de Deus.

O propósito do Espinho na Carne

Paulo diz:

Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar.

2 Corintios 12:7

Sendo assim, o propósito deste espinho é claro: impedir que Paulo se exalte. É sua provação mais afiada. O tom de Paulo sobre o espinho na carne indica que essa dor é a “coroa” de todas suas enfermidades, com o propósito de mantê-lo humilde

Além disso, o espinho é também um meio de levá-lo a repousar na graça de Deus.

Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza

2 Corintios 12:9

Paulo aprendeu através da dor que a graça de Deus é suficiente. E à medida que ele se sentia mais fraco, mais o poder de Deus o fortalecia. Então, quando ele estava fraco, na verdade, ele era forte (2Co 12.10).

Embora sofresse com suas dores, Paulo aprendeu a se alegrar em suas lutas e fraquezas. Seus problemas se tornaram em oportunidade de alegria. Pois, nesses momentos ele experimentava ainda mais do poder de Deus em sua vida.

Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim.
Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.

2 Corintios 12:9,10

Conclusão

Portanto, assim como Paulo sofreu em sua caminhada com Cristo, nós também sofremos. Mas, o sofrimento nos aproxima da graça de Deus. E quando nos entregamos à essa dependência, a graça do Pai nos supre, ampara, fortalece e nos faz amadurecer na fé. O sofrimento na vida é inevitável, mas com Cristo não sofremos em vão.

“Eu lhes disse essas coisas para que em mim vocês tenham paz. Neste mundo vocês terão aflições; contudo, tenham ânimo! Eu venci o mundo”.

João 16:33

Fontes   [ + ]

1. THAYER’S Greek Lexicon. Verbete: σκόλοψ
2, 3, 4. Ellicott’s Commentary for English Readers

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